Alberto – “Não há coincidências…. Gosto de si!”
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@Maria Melo |
Adoro estar ao pé de si,
de lhe lamber a boca,
de lhe chuchar as gémeas,
de lhe beijar as costas,
de amá-la colado a si.
Deixe-me gostar de si,
à minha maneira mística!
Quando vinha Lisboa,
Alberto gostava de ir a um concerto. Apesar de viver num monte alentejano e de
ter muito orgulho na sua profissão de agricultor, ou melhor, como ele gostava de
dizer, camponês, era um melómano sem cura. Sentia a música em tudo o que fazia.
Ouvia a erva a crescer. Dizia que, pelo som, sabia distinguir se estava num campo
de batatas ou de feijão, pois o feijão fazia, ao crescer, uma música diferente
das batatas.
Tinha-a conhecido por mero acaso num concerto. Mas, convenhamos, todos sabem eu não
há coincidências. Era um dia muito quente de verão e Alberto estava em Lisboa a
tratar de assuntos relacionados com os empréstimos bancários que tivera de
pedir para o seu projecto agrícola.
Ao passar pelo Palácio Foz reparou num papel preso à
porta ao virar da esquina do elevador da Glória: “Hoje recital de piano por
Lorenzo Bravo – Lorenzo Bravo toca Bach e Bravo”. Bach e Bravo?! Quem é este
pianista que se pretende pôr à altura de Bach?
Alberto nunca tinha ouvido falar dele. Olhou para o
relógio. O recital iria começar dentro de minutos E porque não? pensou. É
sempre bom ouvir um bom recital. Vamos cá verse este Bravo merece os meus
“bravôs”.
Passou o hall de entrada com duas
colunas adossadas, de mármore, subiu a grandiosa escadaria deste palácio
setecentista que antigamente era conhecido por Palácio
Castelo Melhor e entrou na Sala dos Espelhos, bem gosto novo italiano.
Praticamente todos os lugares estavam
ocupados. O calor era sufocante. Alberto sentou-se na 4ª fila. Na sala entrou
Lorenzo Bravo, um jovem pianista italiano de porte altivo. Sentou-se ao piano e
começou a tocar o seu repertório bastante eclético. Sendo também ele próprio
apresentou um programa no qual alternava Bach e obras próprias.
Alberto põe-se a observar o público. O homem careca da fila da frente, de olhos fechados, abanava a cabeça ao
som da toccata, BWV 830. A mulher gorda ao lado cerrava os olhos mas não
mostrava nenhuma reacção emotiva. A jovem na fila do lado agarrava o programa,
mascava a sua pastilha e vagueava o seu olhar pelos dourados do tecto. A
senhora da saia branca e casaco azul, de cabelo curto e bem penteado,
levantou-se para ver melhor a mestria com que Lorenzo Bravo tocava a sua peça
“Hello”, tocando diretamente nos martelos. O homem de casaco azul e calça bege
cruzava as pernas, deixando ver uma perna depilada e uma mini-meia branca. Ao
consultar o programa tirou os óculos do bolso, fazendo tilintar as chaves,
possivelmente do carro com que veio para Lisboa. A senhora ao seu lado, de
blusa branca, ligeiramente transparente e cabelo encaracolado abanava-se com o
seu leque cor-de-rosa e preto, tentando arrefecer um pouco o ar quente e
abafado da Sala dos Espelhos.
- Uma bela mulher, pensou Alberto.
No final do recital, meteu conversa.
- Que belo concerto! - disse-lhe assim à queima-roupa.
- Muito eclético. Maravilhoso. Pena foram os ruídos das chaves. E as
eternas tosses…
- É mesmo, parece que as pessoas vêm de propósito aos concertos quando têm
tosse – gracejou Alberto.
- E eu que pensei que hoje não iríamos ter tosses. Como nos estamos no
Verão…
- E com um calor que só nos faz desejar um gim tónico bem fresco…
- Tem graça, pensei o mesmo.
- Então, e se fôssemos tomar um. Posso convidá-la para um gim tónico?
Ela não tinha planos para a noite e acedeu. Foram ao bar num terraço dum
hotel ali perto com uma bela vista sobro castelo. O grande calor da tarde já
estava a passar com a brisa da noite que entretanto soprava.
As conversas são como as cerejas e um tema trazia outro. Foram conversando
sem se aperceberam das horas até que um empregado os interrompeu:
- Desculpem, mas vamos encerrar.
Alberto olhou par ao relógio. Já passava da uma da manhã! Como o tempo
tinha voado.
- Bem, aprece que nos estão a expulsar. Amanhã regresso a Mértola. Posso
convidá-la pra lá ir passar o fim-de-semana para continuarmos a nossa conversa?
Ela ficou indecisa. O rapaz era bem disposto mas só se conheciam há apenas
algumas horas. Mas por outro ado, porque não? Ela estava divorciada, sem namorado.
Que havia a perder? Aceitou.
Foi o início duma nova etapa na sua vida. Alberto era uma alma positiva por
natureza. Um grande amante e muito romântico, sempre com pequenos gestos, muito
apaixonados e cheios de originalidade.
O fim-de-semana alargou-se para uma semana.
De regresso a Lisboa, ela foi recebendo missivas quase diárias de Alberto
que ficara em Mértola. Nas cartas
revela sensibilidade, o amor, criatividade e imaginação e acima de tudo, cheias de paixão. Cartas
nunca dirigidas nem assinadas.
A primeira era somente
uma folha branca, dobrada em três onde à esquerda escrevera: “Não há
coincidências…” e no fundo, à direita “Gosto de si!”
No dia seguinte, nova
carta, escrita igualmente a caneta de tinta permanente, azul:
Tu me manques!
Mi manchi
Me haces falta
I missed you
Tradução: És um monstro!
Já não sei comer sozinho à mesa
Olho em frente e você não está cá
De manhã o telefone não toca
e ele espera (a ela)!
A vida corria de feição.
Viajaram muito. Correram mundo. Amaram muito.
Quando a vida profissional
os afastava, as cartas mantinham-nos unidos.
Não há sítio melhor
que
O Palácio Foz!
Foi lá que a conheci!
Foi lá que a amei!
Foi lá que me enterneci!
Parabéns! A ela por
aturá-lo!
(Com tanta gente
interessante neste mundo
E que olha tanto para
si!)
Preciso dos teus
beijos
da tua boca
da tua língua
das tuas carícias
da tua voz
Em resumo: de ti!
Já lhe falei 2 x
Por favor não venda
mais gruas
Compra-me a mim
O teu
Valentim
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Etiquetas: love story, maria Melo
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