quarta-feira, julho 05, 2017

Em casa em “A casa das tias”

















Quando vi o anúncio do lançamento de “As casas das tias”, o 1º romance de Cristina Serôdio, fiquei logo de olho aberto.  Logo o título me levou à minha própria vivência. No Alentejo estavam as tias, as irmãs solteiras do meu Pai que íamos visitar no Natal, na Páscoa e no Verão. Viviam na casa da família, um grande casarão onde no r/ch era a loja de fazendas e miudezas e a quadra dos animais e no 1º andar a habitação. As tias que tudo faziam pelos irmãos e pelos sobrinhos e a quem eu dediquei um livro com o título provisório de “As receitas das minhas tias” que está ainda por publicar.
Assim se compreende o meu interesse assim que li o título. Ao mesmo tempo, e ainda sem nada saber sobre o livro, “A casa das tias” levou-me de imediato também para o mundo queirosiano da “titi” e do “Teodorico” de “A relíquia”.
A leitura do livro leva-nos à nossa infância e adolescência. Pelo tema em si – quantos de nós não temos as nossas raízes na província, na “terra”, onde há uma casa velha, cheia de segredos? – e pelo estilo que nos remete à nossa literatura do século XIX, com Eça de Queiroz, Júlio Diniz e Camilo Castelo Branco. Já falei da associação das tias à titi. As cartas dos irmãos transportam-nos para “A morgadinha dos Canaviais” e para “As pupilas do Senhor Reitor”. Os amores desertados, os amores que geram loucura lembram-nos o “Amor de perdição”.
Toda a história nos é apresentada metodicamente, como se descrevesse o trabalho de um documentalista. Uma acidentada herança dá a M, a prima da narradora, a casa das tias solteiras, irmãs do avô, que visitava na infância. M. é a fiel depositáriada casa das tias. É a voz que dá as personagens à autora. A visita à casa fechada há muitos anos e a abertura de caixas, caixotes, malas e arcas, com cartas, agendas, objetos fazem a narradora dar largas à imaginação, apresentá-los como coisas ordenadas, ligações improváveis. E assim inventa e compõe uma história dessa família. 
Cristina Serôdio escreve uma obra de ficção mas que é ao mesmo tempo a memória de um país. O livro é como um espelho estilhaçado que reflete uma realidade multifacetada, com os seus pequenos retratos, breves descrições, episódios passados entre figuras da casa, o tempo e os dias na aldeia e na cidade.


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quarta-feira, maio 31, 2017

Diversidade na empresa aumenta a segurança

Na palestra que Pat Milligan, Senior Partner e Líder Global de Multinational Client Services e antiga Presidente Regional da América do Norte da Mercer, deu hoje na Mercer sobre diversidade abordou igualmente a segurança nas empresas. Apresentou um estudo recente de grandes empresas multinacionais como por exemplo a Nestlé, que concluiu que empresas com maior diversidade – de género, de idade, de cultura, de religião, de nacionalidade – aumentaram significativamente os registos de segurança.

Mais uma razão para aumentarmos a diversidade dentro das empresas. Diversidade traz riqueza, felicidade, bem estar, realização pessoal – e segurança.

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Batalha perdida? Estamos a retroceder na luta sobre paridade de género

 Numa linda manhã de céu azul, sol a brilhar e passarinhos a chilrear nas árvores, saí de casa toda esperançada na palestra que iria assistir. Mercer tinha convidado vários clientes e amigos para uma palestra com Pat Milligan, Senior Partner e Líder Global de Multinational Client Services, a antiga Presidente Regional da América do Norte da Mercer – e grande lutadora pela paridade de género nas empresas e na sociedade, líder de When Women Thrive, a investigação que reúne a experiência da Mercer e ajuda os clientes a compreender os motores do êxito alavancados na diversidade de género.

Há algumas semanas Pat Milligan tinha estado em Davos, a discutir o que atualmente mais preocupa os principais líderes empresariais e políticos a nível mundial e vinha agora falar em Lisboa sobre 4ª Revolução Industrial e os seus impactos na Gestão do Capital Humano em três dimensões: educação, diversidade de género e carreira.
Porém logo no início da palestra, recebemos um murro no estômago. Pat Milligan apresentava-nos, preto no branco, números que mostram que a luta pela paridade de género está a ficar estagnada, até mesmo a retroceder, e que o futuro vai ficar ainda pior para as mulheres. Estamos a retroceder!
Como é que é possível? Vejamos a realidade. Por um lado, a sociedade está empenhada em igualar as disparidades de género existentes. As empresas multiplicam-se em programas de apoio à paridade e à diversidade. Mas por outro lado, estamos a assistir à chamada 4ª Revolução Industrial: a robótica, a inteligência artificial e outras novidades tecnológicas estão a tomar conta do quotidiano, a transformar o mercado de trabalho e alterar a noção do que significa ser “empregado”.
Se bem que todos estes avanços tenham efeitos muito positivos nas nossas vidas a nível da ciência, da saúde, da educação, não podemos fechar os olhos às perturbações que vai criar no nosso dia-a-dia e na essência do nosso trabalho. E quem vai ser mais afetado? As mulheres!
No seu relatório “O Futuro das Profissões” (http://reports.weforum.org/future-of-jobs-2016/), o Fórum Económico Mundial de 2016 calcula que até 2020 (ou seja, nos próximos três anos!), 35% das competências básica profissionais irão sofrer alterações. Muitas profissões irão desaparecer e muitas novas profissões irão surgir – e tudo isto vai afetar homens e mulheres e abrir ainda mais a disparidade de género. Porquê?
Mercer analisou um universo de 1.6 mil milhões de profissões em todo o mundo e concluiu que o número de empregos ligados à gestão está a aumentar. Esta área é ocupada somente por 25% de mulheres. Como vimos, os lugares de gestão estão ocupados maioritariamente por homens (75%) – ou seja, a disparidade vai ser ainda maior. Com a 4ª Revolução Industrial as profissões que vão desaparecer são as de apoio – e é nestas que trabalha a maioria das mulheres. Ou seja, as mulheres estão na linha da frente dos despedimentos da 4ª Revolução Industrial!
Como tentar travar esta tendência? Segundo este estudo, as profissões de futuro – e nas quais as mulheres estão nitidamente sub-representadas – são as ligadas à ciência, à tecnologia, à engenharia (só há uma participação de 11% de mulheres!) e à matemática. Estes novos dados mostram a necessidade de recrutar e promover as mulheres nestes setores. Muitas das grandes empresas da área da tecnologia já estão a ir às universidades e incentivar as mulheres em cursos mais tecnológicos. Mas o trabalho tem de começar ainda mais atrás, logo nos jardins-de-infância, promovendo a tecnologia junto das meninas. Há que mudar mentalidades – o mais difícil de tudo.
Pat Milligan não se cansou de realçar o impacto que a paridade de género tem no desenvolvimento das empresas e dos países. Aumentar a diversidade a nível de liderança é um fator de crescimento do PIB nacional. Tal já o provaram cinco grandes países: Japão, Alemanha, Canadá, EUA e Brasil. E quando se fala em diversidade abrange-se todo o espectro: género, cultura, religião, idade.
Há que mudar muitos paradigmas. Há que implementar novas leis que são importantes para ajudar a mudar mentalidades. Há empresas que dão bons exemplos. Dois dos maiores fundos americanos de pensões só investem atualmente em empresas que apresentem a maior diversidade.
A vida como a conhecemos está a mudar. As novas gerações têm de pegar seriamente no tema da diversidade para se retroceder. Temos de continuar a andar para a frente.



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segunda-feira, junho 27, 2016

Seremos capazes de partilhar?

Na semana passada estive noutro mundo. Um mundo que já nem conseguimos imaginar que exista.

Estivermos nas “Terras do Fim do Mundo“, como Portugal denominava aquela região de Angola no tempo colonial.

No fim do mundo não há nada. Tudo o que pensamos ser necessário à vida e sem o qual não podemos viver, não há.

As pessoas são nómadas e vivem da pastorícia. Não têm casas como as nossas, somente cubatas ou palhotas feitas de tijolos de terracota. Mas para construírem as casas, têm primeiro de fazer os tijolos, à mão, com barro, e esperar que os tijolos sequem.

Não há água corrente – em muitas aldeias nem sequer existe água. As mulheres e as crianças têm que andar muitos quilómetros para ir buscar a água necessária para a família.
Não há eletricidade.

Não possuem praticamente nada. Estão poucos vestidos e comem essencialmente funge, farinha de mandioca. Dia sim, dia também, A todas as refeições.

E ao ver tudo isto, perguntava-me: estas pessoas serão felizes? De que precisamos para ser felizes? Lembrei-me do Evangelho de São Mateus 6, 28:
Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam!

Precisamos aqui na Europa de tudo o que temos? Temos de possuir tanta coisa?

É fantástico como se consegue viver com menos. Até aqui na Europa. Por exemplo, nas férias de verão vivemos mais livremente, com muito menos. Basta-nos o sol e a praia, as montanhas e o campo.

Na realidade, as nossas necessidades nas férias são muito reduzidas. Lembro-me neste contexto de uma história que me contaram há tempos:
 No século passado, um turista americano foi ao Cairo, no Egito, com o objetivo de visitar um famoso sábio. O turista ficou surpreso ao ver que o sábio morava num quartinho muito simples e cheio de livros. As únicas peças de mobília eram uma cama, uma mesa e um banco.
- Onde estão seus móveis? Perguntou o turista.
E o sábio, bem depressa olhou ao seu redor e perguntou também:
- E onde estão os seus...?
- Os meus?! Surpreendeu-se o turista. - Mas estou aqui só de passagem!
- Eu também...
- A vida na Terra é somente uma passagem... No entanto, alguns vivem como se fossem ficar aqui eternamente, e esquecem-se de ser felizes - concluiu o sábio.

Na realidade, nós estamos de passagem na Terra.

Podemos aproveitar este tempo mais leve do verão para refletirmos sobre a nossa vida material. As nossas casas estão cheias de tralha. Precisamos mesmo de tudo o que temos?

Bens materiais podem ser como uma prisão. Libertemo-nos das garras da posse!

Concentremo-nos no essencial da vida!

Será que conseguimos ter a coragem de seguir o que Jesus nos propõe no Evangelho segundo São Lucas em 18,22:
Ainda te falta uma coisa; vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres e terás um tesouro no céu; vem e segue-me.


Dizemos às crianças que têm de partilhar os seus brinquedos e as guloseimas com outras crianças. E nós? Somos capazes partilhar? Pensemos nisto e ajamos em conformidade.

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Können wir teilen?

Letzte Woche war ich in einer anderen Welt. Eine Welt, die wir uns nicht mehr vorstellen können.

Wir waren am Ende der Welt, besser gesagt „Terras do Fim do Mundo“, wie die portugiesische Kolonialmacht diese angolanische Provinz bezeichnete.

Am Ende der Welt gibt es nichts. Alles was wir hier denken, das unbedingt notwendig für das tägliche Leben ist, gibt es dort nicht.
Die Leute dort sind Nomade, sind Schäfer. Sie haben keine richtigen Häuser, sie leben in Lehmhütten. Aber um eine Hütte zu haben, müssen sie zuerst die Ziegel selbst aus Lehm formen und warten, dass sie trocken werden, bevor sie sie benutzen können.

Es gibt kein fliessendes Trinkasser aus dem Wasserhahn – schlimmer noch, in vielen Dörfern gibt es überhaupt kein Wasser. Frauen und Kinder müssen kilometer weit laufen, um Wasser für die Familie zu holen.
Es gibt keinen elektriscken  Strom.

Sie besitzen so gut wie nichts. Sie sind kaum bekleidet, sie essen, was sie finden.

Und meine Frage war: Sind sie glücklich? Sie leben von einem Tag zum anderen. Ich erinnere mich an Markus 6, 28, den wir heute im Gottesdienst gehört haben:  
             Lernt von den Lilien auf dem Feld, wie sie wachsen: Sie arbeiten nicht und spinnen nicht“.

Brauchen wir hier in Europa wirklich alles, was wir haben? Müssen wir so viel besitzen?
Es ist wunderbar, wie einfach wir leben können. Und das beweisen wir sogar hier  in Europa jedes Jahr in den Ferien. Diese unbeschwerte Zeit fängt bald an. Normalerweise leben wir im Sommer sehr unbefangen, sehr frei und unbeschwert. Wir sind zufrieden mit Sonne und Meer oder Berge und Seen.

In Wirklichkeit sind unsere Bedürfnisse in den Ferien recht klein. Ich erinnere mich dabei an eine Geschichte, die mir vor Jahren erzählt wurde:
 Ein Tourist traf in Ägypten einen Bauer. Dieser zeigte ihm sein Haus, das kaum Möbel hatte. Erstaunt fragte ihn der Tourist: „Hast Du keine Möbel?“. Der Bauer fragte zurück: „Wo sind Deine Möbel?“
„Ich habe keine bei mir“, antwortete er rasch. „Ich bin auf der Durchreise.“
„Ich auch“, erwiderte der Bauer.
In der Tat sind wir bloss vorübergehend auf der Erde.

Wir können diese unbefangene Zeit des Sommers nutzen, um über unser materielles Leben nachzudenken. Unsere Wohnungen sind vollgestopft mit Dingen.

Brauchen wir wirklich alles das?

Besitz kann wie ein Gefängnis sein. Lasst uns freier leben ohne die Ketten des Besitzes!

Lasst uns auf das Wesentliche konzentrieren!

Können wir so mutig sein um Jesus Vorschlag zu folgen, den wir in Lukas 18,22 lesen : 
           Verkaufe alles, was du hast, und gib's den Armen, so wirst du einen Schatz im Himmel haben; und komm, folge mir nach!

Den Kindern ermutigen wir, ihre Spielzeuge, ihre Süssigkeiten mit anderen Kindern teilen.

Können wir Erwachsene freiwillig teilen?


Lasst uns einige Momente innehalten und überlegen, wie wir diese Frage beantworten können.

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terça-feira, março 29, 2016

CAMINHOS DE SANTIAGO – NOTAS SOLTAS

Caminhando
O que nos leva a fazer o Caminho de Santiago? Numa época onde se viaja de avião, onde tudo tem de ser rápido e imediato porque continuam milhares de pessoas a caminhar quilómetros e quilómetros a pé, à chuva e ao vento, por montes e vales, bosques e ribeiros, aldeias e cidades?
No Caminho encontramos jovens e idosos, mulheres, homens e até crianças, portugueses, espanhóis, ingleses, americanos, japoneses, enfim de todo o mundo.
A portuguesa com problemas nos ligamentos do joelho. Começou o Caminho em Barcelos e personifica bem a fábula "A lebre e a tartaruga". Lenta mas decididamente, sobrepondo-se ao joelho, chegou sempre a todos os albergues e a Santiago. Dentro do plano agendado.
A italiana que primeiro visitou Fátima – “O que é vir a Portugal e não ir a Fátima?” - antes de começar o Caminho no Porto. No ano passado fez, também sozinha, o Caminho Francês.
As duas australianas, mãe e filha, começaram o Caminho em Lisboa mas após alguns quilómetros desistiram porque o trajeto era sempre em estradas com muito trânsito. Tomaram então uma camioneta para Fátima e depois da visita ao santuário foram de comboio até ao Porto onde começaram a caminhar. Como em Portela de Tamel os joelhos da mãe tivessem começado a dar sinal, fizeram a etapa até Ponte de Lima separadas; a mãe de camioneta e a filha em corrida! Isabell, a filha, licenciou-se no ano passado e agora anda a correr mundo. No verão de 2015 fez sozinha o Caminho Francês, mas este ano a mãe resolveu acompanhá-la no Caminho Português. Depois de chegarem a Santiago, planeavam ir até à Côte d’Azur onde vive a avó para festejarem o seu 90º aniversário. A mãe era muito aberta com socialização fácil, entrando rapidamente em conversa com os outros caminheiros,
A japonesa que com dois bastões de caminhada e um sorriso nos lábios subia a serra da Labruja. Começou o caminho no dia 2 de março em Lisboa e pretendia chegar a Santiago no dia 25. Percorreu todo o caminho a pé, tendo também passado por Fátima.
Os ciclistas do Porto que muitas pragas rogaram ao subir a Serra da Labruja, levando as bicicletas à cabeça.
Ciclistas subindo a Serra da Labruja
O coreano que placidamente caminhava pelas sendas jacobeias, Encontrámo-lo pela primeira vez à saída de Padron, em Iria Flavia, onde, num café com wi-fi, telefonava alegremente com a pátria longínqua. Fomo-nos cruzando várias vezes com ele até Santiago, sorrindo sempre e trocado breves palavras. Há três anos fizera o Caminho Português com a família. Agora ali estava de novo, sozinho. E disse-nos, já em Santiago, com algum orgulho, “a minha filha também está a fazer o Caminho. Está a 100 km daqui.”
O grupo de escuteiros de Barcelos que alegre e efusivamente se queixava das bolhas, brincava, fazia penteados na camarata.
Os três espanhóis, jovens adultos, das Astúrias que tinham ido de carro até Redondela, e aí tomado um táxi até Ponte de Lima, para aí começarem o Caminho Português. Quando chegassem a Santiago, tomariam uma camioneta de volta a Redondela para apanharem o carro e regressarem a casa. No ano passado fizeram o Caminho Francês. Este ano era o Caminho Português e não a partir de Valença, como faz a grande maioria, mas de Ponte de Lima para ultrapassarem o grande obstáculo que é a serra da Labruja, Eram muito educados e prestáveis. Quando saíam para jantar, deixavam o seu cantinho na camarata muito arrumadinho. Ao levantarem-se cedo, acordavam com o despertador em música clássica que rapidamente desligavam para não incomodar os demais.
Os dois irlandeses robustos, que mais colocaríamos num pub com uma “pint” de Guiness na mão, avançavam rapidamente com uma grande passada.
O grupo de três mulheres e um homem da zona do Porto que parecia estar a fazer o Caminho sem alegria interior. Tinham sempre uma cara triste e as conversas pareciam ser ou de confessionário ou de consultório de psiquiatra.
O divertido grupo de jovens do Porto, que começou o Caminho em Valença do Minho, e que chegava sempre aos albergues no final da tarde, arrastando-se mas com muito boa disposição.
A avó, mãe e neto do Brasil que tinham começado o Caminho em Caminha para fazer o Caminho do Litoral. Estavam à procura das raízes. Uma linha de antepassados tinha a sua origem em Pontevedra, onde quereriam ir (voltar) depois de Santiago para procurar registos para fazer a árvore genealógica. A outra linha é bem preta. O tetravô era do Porto de uma família tão pobre que emigrou para fugir à fome. Foi trabalhar para uma fazendo de negros. A tetravó era escrava nessa fazenda. “Um dia, um índio pulou a cerca e violou-a. A minha tetravó ficou grávida e deu à luz uma cafuza. Você sabe o que é cafuza? É mistura de índio e negro”. A tetravó não podia ficar na fazenda de negros com uma cafuza e foi expulsa. O tetravô não gostou da decisão do dono da fazenda e casou com a escrava, adotando a cafuza. Em criança, Lourdes viveu em muitos lugares no Brasil porque o pai era militar de paixão. Aos 7 anos, o pai assentou arraiais em Brasília, tornando-se, com grande tristeza, funcionário federal. “Imagine, vivo há já 53 anos em Brasília. Casei em Brasília, meus filhos e netos nasceram, cresceram e casaram em Brasília, nunca mais saí”. Saiu agora para fazer o Caminho Português e ir ao encontro das suas raízes.
Fernanda, a já lendária D. Fernanda de Vitorino de Piães, antiga carteira (distribuidora de correio) que agora recebe caminheiros e os trata como membros da família.
Fernanda a fritar peixe para as três caminheiras que ficaram na sua casa nessa noite
Sérgio  e Jorge, as almas do albergue de Portela (Barro) que recebem os caminheiros com muito coração, simpatia e simplicidade. Apesar de estar paralisado desde os 14 anos, Sérgio não quebrou, lutando pela vida e por ser útil à sociedade. Tem agora um papel fundamental no acolhimento de caminheiros, Todos os dias preparam o jantar para os caminheiros que comem em conjunta “como uma grande família”. Antes de se começar a comer, é feita uma oração de graças e uma oração pelos caminheiros que no dia anterior ali pernoitaram, sendo lembrados uma a um por nome.
A alemã que se decidiu a fazer o Caminho em três dias, aceitando o repto da sua amiga venezuelana. Começaram em Valença. Após uma etapa longa. chegou derreada ao albergue de Portela. Mas aí recuperou as forças, tendo chegado a Santiago um dia mais cedo do que planeara.
Conchi, a rececionista do Albergue de Valga, uma entusiasta de Portugal, sempre disponível para qualquer pedido que se faça. 
O espanhol que nos tirou inúmeras fotografias quando descansávamos
com as pernas ao alto e sempre nos lembrava que "para caminhar é preciso ter os pés em baixo, não no alto".
Caminheiras


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sexta-feira, março 25, 2016

CAMINHO DE SANTIAGO - Dia 8

 Última etapa. Pensávamos Que estaríamos a 10 km e que o caminho  se iria fazer num pulinho. Nem seria necessário levantar-nos tão cedo. 
Na camarata ainda todos dormiam. Às escuras pegámos nas nossas coisas e levámo-la para fora para as arrumar. Ia para acender a luz na sala comum do albergue para arrumar a mochila quando me apercebi de que estava cheia. Um grupo de jovens dormia no chão. Não acendi a luz e tentámos não fazer barulho. Mas aos poucos outros caminheiros iam acordando e saindo das camaratas e, aos poucos , os jovens iam acordando. Contaram então as suas aventuras. Tinham-se perdido e do chegado ali às 22.30 e o albergue estava cheios. Ficaram então no chão da sala comum. 
Pela última vez enrolámos o saco de dormir e o esmagámos para caber no justo saco em que tem sido transportado. 
O dia começava a clarear e, apesar de termos as lanternas à mão não foram necessárias.  Queríamos beber um café mas tudo ainda estava fechado. Entretanto começou a chover, primeiro suavemente mas depois com força. Comecei a sentir as meias molhadas. 
Após termos andado 6 km vimos uma roulette no final de um caminho florestal onde um grande grupo de portugueses tomava o pequeno -almoço. Pausa de 5 minutos para um café e uma banana.
Só faltariam 4 km, pensávamos boa cheias de esperança. 
Retomámos a marcha e olhei melhor para o mapa. Tínhamo-nos enganado. De Teo, onde pernoitáramos, a Santiago seriam 16 km e não 10! Afinal ainda só estávamos a meio da caminhada. Ficámos desiludidas e desanimadas. Mas, claro , havia que continuar a caminhar. Para agravar a chuva tornou -se mais forte. 
Saímos do bosque e entrámos num dos bairros periféricos da cidade. Vimos aberto o café de um ginásio. Já  tínhamos andado 12 km praticamente. Tínhamos de fazer uma pausa. Entrámos mas não nos sentimos bem vindas. Não nos importámos, bebemos o café e descansámos um pouco. 
Seguimos caminho com mais ânimo.  De todo o lado víamos caminheiros com as suas largas capas de chuva. 
Às 11.30 chegámos ao centro de Santiago. Depois de oito dias por caminhos entre bosques e pelos campos, de quilómetros e quilómetros sozinhas, foi quase um choque entrarmos no centro de Santiago apinhada de turistas e de comércio. A catedral em obras. A chuva. Na entrada lateral da catedral não me queriam deixar entrar porque tinha uma mochila! A Central do Peregrino onde fomos pôr o último carimbo na nossa credencial parecia uma repartição pública com "gift shop"! Horrível! 
Não gostei deste final mas a experiência espiritual de oito dias em contacto direto com a natureza e afastada de tudo e de todos foi fantástica. Caminhar 184 km. Superar os nossos limites físicos. Atingir os nossos objetivos. Viver os nossos sonhos. Valeu a pena 

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quinta-feira, março 24, 2016

CAMINHO DE SANTIAGO - Dia 7

A etapa de hoje começou através de um bosque espesso de carvalhos. As folhas secas e as agulhas dos pinheiros atapetavam o chão, suavizando os nossos passos. De quando em quando riachos suavizavam  a nossa caminhada e cascatas cantavam-nos lindas cantatasb que nos faziam esquecer histórias escabrosas que ontem nos contaram de desaparecimentos de caminheiras. É que voltámos a sair muito cedo quando tudo ainda estava envolto no véu da noite. E como havia  algumas nuvens a lua cheia não conseguia iluminar o nosso caminho.  
Aos primeiros raios g de luz chegámos a São Miguel de Valga onde mesmo junto ao rio já conseguimos ver as ruínas de um moinho de água é uma linda ponte de madeira. Do miradouro do alto da vila, um lugar privilegiado, temos uma linda vista para o rio Ulla e..... uma fábrica de aglomerados e de cujas chaminés saia nuvens espessas de fumo esbranquiçado. Que pena! Um local tão bonito e com vistas tão feias. 
Comecámos a descer e logo passámos pelo cruzeiro de São Lázaro. 
Rapidamente chegámos a Pontecesures. Ao atravessarmos o rio Ulla temos à nossa espera um cruzeiro com um São Tiago com o Evangelho na mão. 



Às 9.30 chegámos a Padron. Os 10 primeiros quilómetros do dia estavam feitos. O Caminho aqui ê algo estranho pois passa pela enorme areal da feira com todas as atrações possíveis - mas tudo tapado. Atrás escondia-se  o mercado com grande oferta de peixe e marisco das rias baixas.
 Padron tem grande importância no contexto do Caminho de Santiago pois foi aqui que chegou o barco do santo. À época Padron era um importante porto fluvial. Na igreja de Santiago está guardada no altar-mor a amarra de pedra onde foi presa a corda do barco. 
Padron  é também conhecida pelos seus "pimientos de Padron... Unos pican, otros no". Na realidade, estes deveriam chamar-se "pimentos de Hebron", pois foi a esta localidade que chegaram no século XVI, vindos da América Central. Foram aclimatados pelos monges franciscano cujo convento de Santo Antonio servia igualmente de escola de missões. 
Seguimos então para Teo passando por Iria, a terra de Rosalia Castro e do Nobel Cela e por A Escravitude, onde bebemos um pouco de água da fonte milagrosa junto ao santuário que é igual à catedral de Santiago mas em ponto pequeno. 
Ficámos no albergue de Teo, com somente 20 camas que ficaram totalmente ocupadas às 15.30.



Amanhã temos a etapa mais curta do nosso caminho: 10 km. E chegaremos ao nosso destino final, Santiago de Compostela.

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quarta-feira, março 23, 2016

CAMINHO DE SANTIAGO - Dia 6

Saímos de novo muito cedo. Breu total. O início da etapa de hoje seria por um bosque. Como seria um bosque na escuridão total? 
O céu estava escuro mas a lua quase cheia enchia o caminho de luz. Fomos seguindo as setas amarelas do Caminho de Santiago. Mal tínhamos andado um quilómetro um cheiro nauseabundo ofendeu o nosso  olfato. O sinal da empresa estava iluminado : Confusa. Como é que duma empresa de congelados poderia sair um cheiro que se entranhava até ao cérebro? 
Felizmente na aldeia seguinte um cheiro muito agradável adoçou o nosso andar:  duma padaria exalava o   Inebriante cheiro de pão acabado do cozer. E nós que ainda não tínhamos tomado p pequeno-almoço! Mas a padaria não estava no nosso caminho e assim seguimos. 
Parámos em Caldas de Reis, uma estância termal de águas quentes sulfurosas, no albergue Catro Canos do simpático José que nos recebeu com um caloroso abraço. Conhecemo-lo há três dias em Portugal no Albergue Estrada Romana e alegrou-se de nos ver. 
Mais descansadas seguimos caminho pela vila de Caldas de Reis.
Estabelecimento termal de Caldas de Reis


Os Romanos estabeleceram-se na área atraídos pelas águas termais  que estão na origem do nome, aparecendo no itinerário antonino  do século III na Via Romana XIX que estamos a arguir desde Rubiães. A vila tem um traçado medieval com alguns balneários termais, um dos quais tinha uma fonte no exterior para os caminhantes lavarem e relaxarem os pés. 


Fonte de águas quentes sulfurosas de Caldas de Reis


Continuámos caminho até O Pino por bosques de carvalhos e vinhas. 
O albergue foi inaugurado em 2010 numa escola desativada. Aqui pudemos descansar os pés e as pernas com um fantástico duche quente. A simpática Conchi recebeu-nos tranquilamente. É fã de Portugal para onde vai amanhã passar os dois dias de folga. 

Estátua no albergue de Valga mostrando um caminheiro a verificar as suas bolhas

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